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Quinta-feira, 12 de Julho de 2018

Figuras da Covilhã - O Mestre Abílio

O Mestre Abílio foi uma das pessoas mais carismáticas
que a Covilhã teve.

 Com a devida autorização do autor:

Paulo Cavaca Pimentel

Histórias (in)confessáveis da nossa terra e da nossa gente / Paulo Cavaca Pimentel. – São Paulo : All Print Editora, 2010.

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O MESTRE ABÍLIO

O Mestre Abílio foi uma das pessoas mais caris- máticas que a Covilhã teve.

Pessoa muito estimada por todos, pela sua simpatia e suas “tiradas” muito inteligentes e oportunas. Dono de uma perspicácia e de um sarcasmo inigualáveis.

Era barbeiro, mas se auto-intitulava de Industrial de Barbearia. Sempre muito bem vestido, com fatos bem cortados, gostava de usar “papillon”, bigode muito bem aparado e um chapéu que lhe dava um ar especial de boémio. Para completar, era sempre visto a fumar um charuto cubano, que lhe dava uma elegância ímpar.

 

Gostava de assistir um bom desafio de futebol, e sempre que o Sporting da Covilhã jogava em “casa”, lá estava ele na bancada lateral.

Jogar uma boa partida de chichon no Ginásio, e ver um bom filme de Far-West no “Pina”, eram os seus pas- satempos preferidos.

Tinha fama de visionário e consideravam-no um empreendedor, um profissional de vanguarda. Sempre que podia, deslocava-se à capital, onde passava longos períodos à procura de novas técnicas, reciclando-se e aperfeiçoando-se, na arte da sua profissão.

Construiu na Covilhã, numa de suas principais ave- nidas, um dos prédios mais polémicos pelo seu forma- to e pela sua arquitectura destoante dos demais. Era o que se podia chamar de um belo palavrão...um palavrão vertical, bem ali no centro da cidade.

Atribuem-se a ele, muitas histórias, sendo que a grande maioria, são verídicas, outras, talvez nem tanto, mas todas sempre contadas com muito humor pelos Co- vilhanenses, que a partir de agora, serão aqui narradas em vários “capítulos”.

 

O MESTRE VISIONÁRIO

 

Contava-se que:

Quando o Mestre resolveu tirar a carta de condução, já não era novo. Para “ajudar”, também já exi- bia uma barriga bastante proeminente - que ele, sem- pre muito brincalhão, chamava de calo sexual - que dificultava a destreza na arte de conduzir. Teve que fazer várias tentativas para passar no exame. Fez mais umas poucas aulas com o senhor Brás, dono da escola de condução mais conceituada da Covilhã, que morava ali perto da Despachante, e finalmente lá conseguiu a tão desejada carta.

Umas semanas depois, ainda inexperiente, ao estacio- nar o seu carro, um Skoda cinzento, no Pelourinho, bem em frente à “finada” Confeitaria Lisbonense, atrapalhou- se todo e espatifou-se em cima das grades. O polícia si- naleiro que naquele dia estava de plantão em frente ao Montalto, era o “trinta e cinco”, mau como as cobras.

Desce muito bravo daquele “poleiro”, dirige-se ao Mestre, e pergunta-lhe:

  • Ó Mestre então como é que o senhor faz uma coisa destas?

Responde-lhe o Mestre:

  • Ora porra senhor guarda fazem um carro com três pedais e eu só tenho dois pés...

Conta-se na Covilhã, que quando apareceu na cida- de o primeiro carro automático, o Mestre teria dito para os amigos:

  • Não é que me queira gabar, vocês sabem que eu não sou disso, mas a idéia foi Estão vendo que já tem um carro com dois pedais.

Parece, que foi desse episódio que lhe veio a fama de visionário.

 

O MESTRE NO VELÓRIO

 

Contava-se que:

Fazia muito frio naquela manhã na Covilhã, o que não é raro na cidade, e aquele era um dia muito tris- te para o Mestre Abílio, pois sua mãe tinha falecido após uma longa e sofrida enfermidade.

Estava ele velando o corpo na igreja de São Francisco, e iam chegando os amigos, para consolá-lo. Cada um com o seu comentário, um mais desapropriado que o outro.

Chegou o Farinhota e foi dizendo: “morreu como um passarinho...” Aí apareceu o Maralhas: “teve uma morte linda...”, “está com um semblante tão tranquilo que nem parece que sofreu tanto, nos últimos dias...” disse o “Mil e Oitocentos”.

O “Mil e Oitocentos”, morava à N.Sra. do Rosário, era um contínuo da Escola Industrial e ganhou na Lotaria, mil e oitocentos contos. A mulher encheu a casa de queijos e chouriças, comprou uma quantidade enor- me de pulseiras de ouro e ficava à janela, com os braços para fora, exibindo a sua coleção.

Em pouco tempo, perdeu tudo. Só não perdeu a alcunha.

O Mestre já estava cansado de ouvir tantas babosei- ras, quando chega o “João Gago” – seu velho amigo - com uma cara muito triste, querendo consolar o amigo, olha para a pobre senhora ali deitada no caixão, e diz ao Mestre, choramingando:

  • Então “mé mé” Mestre a sua “pó pó pó” pobre mãe- zinha “mo mo mo” ..

Responde o Mestre, já irritado:

  • Não, não, ela está ali só fazendo a ...

 

O MESTRE E O HOMEM DO PÍFARO

 

O Mestre Abílio morava na continuação da Av.de Santarém, depois que passava o Zé do Pinhão.

Estava em casa e tinha acabado de almoçar. O menu do dia foi cherovias fritas com feijão pequeno, especialida- de da sua mulher, a quem chamava, carinhosamente de “minha chapelista”. Por sinal tinha comido bem, pois esse era um dos seus pratos prediletos.

  • Ó mestre não queres mais? - pergunta-lhe a mulher
  • Ó mulher, já estou cheio, podes guardar a sobra que amanhã come-se. - respondeu

Estava a tomar um café acompanhado de uma gin- ginha e fumando um belo de um charuto, como era seu hábito diário, quando bate à porta, o “Homem do Pífa- ro” como era conhecido o Sô Jaquim, um pedinte muito conhecido no bairro. Dizia-se que era rico e irmão de um Pároco de uma aldeia situada perto da Covilhã, mas também, nunca ninguém provou. O Sô Jaquim fazia-se sempre acompanhar por um pífaro de ferro muito ve- lho, que tocava depois que recebia a esmola. Daí lhe vi- nha a alcunha.

O Mestre atendeu à porta e o Homem do Pífaro pe- de-lhe alguma coisinha pra comer.

O Mestre pergunta-lhe:

  • Olhe lá, vossemecê gosta de cherovias dum dia “pró” outro?
  • Gosto, gosto sim senhor, respondeu-lhe o pedinte todo
  • Então olhe, passe cá amanhã!!! - diz-lhe o Mestre.

 

O MESTRE E O PREGO

 

O Mestre Abílio tinha o hábito de, especialmente no verão, aos fins de tarde, sentar-se na esplanada do Montalto, à espera do seu inseparável amigo, e sempre simpático, Carriço, que saía da Sapataria Impe- rial às sete horas para depois os dois, que eram vizinhos, fazerem o caminho de casa calmamente conversando sobre os acontecimentos do dia. Ali se sentava, e o seu pedido era sempre o mesmo: um prego acompanhado por um fino. Repetia aquele ritual quase todos os dias.O Mestre Abílio tinha o hábito de, especialmente no verão, aos fins de tarde, sentar-se na espla-

Era para ele um prazer ser atendido por aquela sim- pática e inesquecível equipa, formada pelo Chico, Ce- lestino, Jeremias, Valério, velhos empregados da casa, muito competentes e dedicados. Nem precisava deta- lhar o pedido, pois eles já sabiam de cor e salteado qual era a preferência dele: o fino com um dedo de espuma e o prego bem passado. Só perguntavam:

  • Mestre, o de sempre?

Porém tinha no Montalto um empregado Madei- rense, que nem me lembro do nome - deve ter ficado pouco tempo - que destoava da equipa, era muito an- tipático, mal educado, e desatento ao serviço, era um verdadeiro bronco.

Quando era ele que atendia o Mestre, fazia-lhe sem- pre a mesma pergunta:

  • O prego, vai comer bem passado ou mal passado? Pacientemente, o Mestre repetia:
  • Bem passado!

No outro dia, lá vinha de novo o Madeirense:

  • O prego, vai comer bem passado ou mal passado? O Mestre andava sem paciência ultimamente, e cansado de ouvir sempre a mesma pergunta, começava a perder as estribeiras. Mas respondia:
  • Bem passado!

Um dia comentou com o amigo:

  • Éh pá ó Carriço, este gajo anda a gozar comigo. A próxima vez, vou-lhe perguntar se tem tia. E se tiver, já sabes para onde é que o vou ..

Na semana seguinte, lá vem o Madeirense, parecia que o Mestre tinha mesmo razão, o gajo estava mesmo a gozar com ele:

  • Olhe lá, o prego, vai comer bem passado ou mal passado?

Aí, o Mestre muito irritado com o gajo, não aguentou e gritou:

  • Olhe seu ordinário, quem vai ser comido mal passa- do é você, se me voltar a fazer essa pergunta!!!

 

O MESTRE VAI AO CINEMA

 

Conta-se que:

Naquela tarde de domingo não tinha futebol na Covilhã. O Sporting, na época, passava por mais uma crise e andava na terceira divisão. Ia jogar a Pinhel.

O Mestre Abílio que sempre gostava de “ir à bola”, naquela tarde não tinha para onde ir.

Estava à porta da tabacaria ao lado do Montalto, onde tinha comprado o seu charuto com a Menina Ma- riazinha, quando resolve ir à matinée do Teatro Cine, o cinema do Pina, como diziam os antigos.

O Mestre tinha um trato com um dos bilheteiros, o Zé Oliveira. Sempre que era possível, acomodava na poltrona ao lado do Mestre, alguma moçoila, de prefe-

 

rência, atrativa. Em compensação o Zé tinha direito a um corte à francesa gratuito por mês, na barbearia do Mestre.

  • Veja lá ó Zé, não me decepcione – dizia ele sempre ao

Estava em cartaz, o Love Story, com a Ali MacGrow e o Ryan O’Neal. Não era o tipo de filme que lhe agrada- va - dizia que era filme piegas - ele preferia um bom Far West com o John Wayne. “Fár vést” como ele dizia.

Já estava devidamente acomodado, quando se sen- tou uma bela rapariga ao seu lado. Deu-lhe aquela olha- da de cima em baixo, como era sua mania, e gostou do que viu. Coxas roliças, “pára choques reforçados”, do jeito que ele gostava.

De certa forma contagiado pelas cenas da tela, lá pelo meio do filme o Mestre não conteve os seus ímpetos e mandou-lhe a mão às pernas.

Ela muito indignada (até agora não entendi muito bem porquê) pregou-lhe uma sonora bofetada. Nesse exato momento, para azar do Mestre, as luzes da sala, para o intervalo acenderam-se, e ele, sempre se saindo bem das situações, levanta-se e grita bem alto:

  • E lá em casa levas mais!!!!

 

O MESTRE NO ELÉCTRICO

 

Dizem as más línguas que:

O Mestre Abílio tinha ido a Lisboa visitar uns parentes afastados, o que fazia mais ou menos de dois em dois anos. Para não incomodar a família, e para po- der andar mais à vontade, hospedava-se habitualmente, na Pensão Bem Estar, localizada na Baixa.

Estava uma tarde muito agradável, e o Mestre que  já tinha comido um bom bife no Nicola, aproveitando a sua estadia na capital, sentou-se na esplanada da Paste- laria Suiça, e tomou um café com uma ginginha.

  • Isto é que é Dizia ele para os seus botões, entre uma baforada e outra no seu charuto.

Observando o movimento dos lisboetas, ficava ex- tasiado vendo-os descer dos eléctricos em andamento; aquilo fascinava-o.

  • Vou fazer o mesmo. Se eles podem, porquê eu não posso também? Eu lá sou homem de ficar por baixo? - pensava

Pagou a conta e lá foi ele, todo elegante, usando aque- le seu chapéu, com uma peninha, subiu no eléctrico deu umas voltas ali pela Baixa, passeou pelos Restauradores, entrou nos Correios para mandar um postal para a sua esposa e quando chegava de novo ao Rossio, em frente à Pastelaria Suiça, tomou coragem e resolveu saltar.

Ele que não tinha experiência, o que aconteceu... es- patifou-se no chão, claro!

Junta-se então aquela malta toda para acudi-lo.

Como sempre, sem perder a pose, e sacudindo o pó do fato, pergunta ele aos curiosos:

  • Ora que porra, então cada um não pode sair como quer?

 

O MESTRE E O ZÉ CARROLA

 

Contava-se na época, que:

Naquela manhã de domingo o Mestre não es- tava para brincadeiras. Tinha andado na “boa-vai-ela”, chegou a casa de madrugada e levou um belo raspanete da mulher.

Para não se chatear mais, saiu de casa cedo e nem o pequeno almoço tomou. Foi tomá-lo ao Montalto. Cha- mou o sempre simpático e sorridente Chico, antigo fun- cionário da casa, e pediu-lhe:

  • Olhe lá ó Chico, traga-me aí um galão, uma sandes de fiambre e um bolo de arroz - que gostava de molhar no café com

Depois de tomar a costumeira bica, ali ficou a pensar na vida, dando umas boas baforadas no seu charuto e aproveitou para engraxar os sapatos com o senhor An- tonio, que sempre dizia: “graxe, graxe, aproveitem hoje que amanhã vou prá serra”.

Dali a pouco, aparece-lhe ali o Zé Carrola, um amigo de longa data, que morava nos Sete Capotes, caminho para o Tortosendo. O Carrola tinha o hábito de, sempre que vinha à Covilhã, praticamente todas as semanas, pedir o carro emprestado ao Mestre.

O Mestre sempre foi muito generoso, dificilmente di- zia um não para os amigos. Mas também, quando per- cebia um certo abuso, a “coisa” mudava de figura. E na verdade era o que estava acontecendo com o Zé Carrola. Além de lhe pedir a toda hora o Taunus 17M empresta- do, dava as suas voltas, que não eram curtas - costuma- va ir com freqüência até ao Refúgio, onde tinha muitos amigos -, e ainda devolvia o carro sem gasolina.

Aquela situação já estava a passar dos limites. Lá vem o Zé, com o pedido habitual:

  • Desculpe lá ó Mestre, hoje à tarde precisava que me emprestasse o carro porque tenho que visitar um amigo que está no hospital, fez uma ....

O Mestre nem o deixou terminar, interrompeu-o e já foi direto ao assunto:

  • Olha ó Zé, hoje não dá! Hoje vou à

O Zé Carrola levantou-se e de cara feia, foi embora em direção à tabacaria.

O Mestre grita-lhe:

  • Ó Zé, ó Zé Carrola volta aqui! Lá vem o Carrola
  • Olha ó Zé, fica sabendo que o meu cu não é gara- gem!!!
  • Mas ó Mestre, por acaso eu disse alguma coisa? - perguntou o Zé.
  • Não disseste, mas pensaste!!!

O MESTRE E O COMÍCIO

 

O Zé Luís Moraes Alçada, vivia no Rio de Janeiro e voltou para a Covilhã em 1979, um ano após o

falecimento do seu pai.

Logo nos primeiros dias na cidade, foi cortar o cabelo ao Mestre Abílio, e para sua surpresa encontrou o Mes- tre, sozinho e muito triste.

  • Então mestre, sem ajudante, sem freguesia, o que é que se passa? – perguntou o Zé Luís.
  • Eh pá já viste o que me fizeram? Isto não se faz a um velho! Desapareceram todos! – respondeu o Mestre angustiado.
  • Mas afinal o que é que aconteceu? – perguntou o Zé Luís muito
  • Olha Zé, o teu primo foi para o PSD, o Santos Mar- ques para o PS, e deixaram-me com o PC!!! – responde o Mestre
  • Sabes como são estas coisas da política... Fomos fa-

 

zer um comício à Boidobra e os camaradas pediram-me “pra” fazer um discurso. Comecei a falar, a falar, aí um gajo do diretório, diz-me ao ouvido: “Mestre, “tá” muito morno isso aí! Tem que ser mais inflamado, carago! O povo quer ver sangue! Sangue!!! Tá a entender?”

  • Mas e daí? O que é que isso teve a ver com o sumiço da freguesia? – pergunta o Zé Luís.
  • Vai ouvindo. Peguei embalo, começaram os aplau- sos, fui-me empolgando, e como o gajo queria ..
  • Mas e daí? – interrompe o Zé Luís, sem se aguentar de tanta
  • Aí, é que foi a minha desgraça! – diz o Mestre. Gritei para a multidão:
  • Se algum fascista desgraçado se sentar na minha cadeira da barbearia, corto-lhe o pescoço com a navalha mais afiada que lá tiver!
  • Fui ovacionado, aplaudido, durante cinco minutos. Mesmo com o meu peso, fui carregado em ombros pelos camaradas... – conta o Mestre visivelmente
  • E onde é que está problema? – pergunta o Zé Luís.
  • Ora onde é que está o problema? Então não “tás” a ver a “casa” vazia? Nunca mais ninguém cá pôs os pés...deixaram de cá vir! Logo eu que não faço mal a uma mosca!!!

O MESTRE E O CORTE À FRANCESA

 

Contava-se, que:

O Mestre Abílio gostava de dar as suas escapa- dinhas à capital. A cada dois meses lá ia ele. Pegava a automotora do meio-dia, chegava a Lisboa à hora do jantar e por lá ficava uns três dias hospedado na Pensão Bem-estar, na Rua do Ouro, ali na Baixa.

Dizia que ia se atualizar nos assuntos capilares, ver a tendência da moda e comprar material de consumo, de primeira qualidade, para o seu estabelecimento.

Ele sempre comentava: “se os industriais de lanifí- cios faziam viagens para a Europa, para se atualizarem das novidades no mundo dos têxteis, evolução de ma- quinaria, das matérias-primas, e compra de máquinas, porquê é que ele não podia fazer o mesmo? Afinal ele também era um industrial...de barbearia, mas era”.

Numa das suas estadias, tinha ido comer uns petiscos e beber uns finos, na Solmar, na Rua do Coliseu, quando ao lado da sede do Benfica, chamou-lhe a atenção num salão de cabeleireiro – nome já dado a barbearia naque- la época, em Lisboa - um cartaz anunciando “Corte à Francesa”.

“Que raio de corte será esse?- perguntou-se.

“É fácil” – pensou. “Vou entrar e pedir um corte desses”

Lá entrou no salão, sentou-se na cadeira e prestou bastante atenção no corte que o oficial fazia...puxava o cabelo para um lado...puxava para o outro, mas real- mente ele não entendeu foi nada da tal “técnica”.

Como visionário que era, o Mestre já vislumbrou na nova técnica capilar uma oportunidade para atrair mais freguesia e incrementar os negócios do seu salão.

Na volta ao seu estabelecimento na Covilhã, pediu ao Frazão, seu dedicado e antigo funcionário:

  • Olhe lá ó Frazão, faz favor, chegue-me ali em bai- xo à Papelaria Neves e compre uma folha de cartolina e uma caneta preta
  • Mas para quê? – perguntou o Frazão.
  • Ande faça o que lhe mando que já vai ver. Vamos ter novidades aqui no salão.

O Frazão chegou com a cartolina, e o Mestre man- dou-o escrever nela, em letras bem grandes: ”NOVI- DADE – CORTE À FRANCESA”.

  • Agora cole aí no vidro da montra – manda o O Frazão muito intrigado, pergunta:
  • Mas ó Mestre o que é que é isso afinal?
  • Frazão, esta é uma técnica de corte revolucionária

 

que está fazendo um sucesso enorme em Lisboa. Pode- mos cobrar dois escudos a mais por este corte. O normal continua cinco escudos e o corte à francesa vai ser sete

  • explicou o
    • Mas ó Mestre, como é que raio é esse corte? Eu não sei fazer. - diz o Frazão.
    • Como é que você não sabe? Sabe sim senhor. Como é que você começa o corte normal? Não é da esquerda para a direita? Então, este novo corte é da direita para a esquerda. Simples não é? – explicou o
    • Mas Mestre, isso não muda nada. Dá na mesma, o corte é
    • Se dá na mesma ou não, isso é só um detalhe. Não muda nada. Claro que não muda nada, mas faz de conta que muda. Está a entender? E já vamos começar ama- nhã. E se alguém perguntar onde aprendeu, diga que fez um curso intensivo, na capital – orientou o

Os negócios do Mestre eram sempre norteados pela rec- tidão e seguindo esse preceito, combinou com o Frazão:

  • Olhe ó Frazão, dos dois paus que vamos ganhar a mais, no corte à francesa, um é meu e outro é seu. Certo assim?

O sucesso do novo corte foi estrondoso. Aumentou  a clientela de uma forma tal, que tinha dias, especial- mente aos sábados, fazia fila para cortar “à francesa”.   A fama do corte foi correndo de tal maneira pela cida- de, que nem se falava mais em “corte à francesa”, era o “corte do Mestre”.

O “corte à francesa” deu uma alavancagem tal, nas finanças do Mestre que lhe permitiu realizar o sonho antigo, de construir um belíssimo prédio, de uma arqui- tetura arrojada e avançadissima para a época, na Rua Visconde da Coriscada.

 

Quanto ao Frazão, detentor e pioneiro da sofisticada técnica do “corte à francesa” não demorou para montar o seu próprio salão na Estação – bairro progressista, que na época era o que mais crescia na cidade - que o aco- lheu de braços abertos.

 

O PUM DO MESTRE

 

Contava-se que:

Era um sábado de verão, o Mestre, com seu cha- ruto pendurado no canto da boca, dava o seu passeio para fazer a digestão do farto almoço que tinha comido no Pintado - um belo cozido à portuguesa – acompa- nhado por meia garrafa de tinto da Adega da Covilhã

– Conde de Caria - como era de seu gosto.

Ia-se dirigindo ao seu estabelecimento, que ficava na rampa da Igreja de S.Tiago, em frente à Casa de Saúde, quando ali na porta da mercearia do Romano, o Mestre não aguentou e soltou um daqueles seus famosos es- trondosos puns...

Um polícia que vinha bem atrás dele, que para seu azar era o Sub-chefe Dias, famoso pelo seu mau humor, não perdoou:

  • Ó Mestre, desculpe lá, mas vou ter que multá-lo.

O Mestre olha para o Sub-chefe muito admirado e pergunta:

  • Então, quanto é?
  • São dez escudos! - responde-lhe o Sub-chefe Dias. O Mestre vendo que não tem outro jeito, abre a carteira e olha para cá, olha para lá... e solta outro grande pum, dizendo ao Sub-chefe:

Olhe tome lá vinte que hoje não tenho cá troco.

 

OS PASTÉIS DE NATA

 

O Mestre Abílio casou-se sem grandes festas, teve um casamento bem simples, pois também tinha

pouca família e a da sua esposa era de Lisboa, e naquele tempo uma viagem da capital para a Covilhã, era rode- ada de complicações, gastava-se muito tempo e era dis- pendiosa. Ele também estava começando a vida na sua profissão de barbeiro, razão pela qual não lhe sobrava muito dinheiro para festas.

O Mestre como não era de perder tempo, logo pla- neou o primeiro filho, e a sua mulher, carinhosamente chamada por ele de “a minha chapelista” - em memória do sogro que tinha uma loja de chapéus junto ao Orfeão da Covilhã - ficou grávida.

Diz-se que ela tinha um gosto especial por pastéis  de nata e os seus desejos, próprios da gravidez, eram por eles. Todo o santo dia, lá ia o Mestre à Confeitaria Lisbonense, comprá-los para lhe levar pelo menos um, e às vezes dois.

O Mestre ao chegar a casa, já ia dizendo, para agra- dar à mulher:

  • Olha o pastelinho

Os meses foram-se passando e o Mestre foi paciente- mente matando os desejos da mulher; mas ele, que era um pouco forreta, avesso a grandes gastos, vendo a des- pesa em pastéis a aumentar, na conversa com os amigos no Café, queixava-se da situação.

Conta-se que um dia, no Montalto, teve essa conver- sa com o “velho” Brancal:

  • Veja lá, veja lá, ó senhor Brancal, vossemecê quer lá ver isto?... Sabe que a minha chapelista está grávida, não sabe? Não é que ela agora só me pede pastéis de nata a toda a hora, diz que está de

Responde-lhe o senhor Brancal, de pronto e sem cerimó- nias:

  • Porra !!! Olhe que não lhe dá pra pedir regueifas e pães de quartos, catano !!! Desculpe lá, ó Mestre, mas isso é pior que sustentar burro a pão-de-ló!

 

O MESTRE NAS ARCADAS

 

Andava o Mestre a fazer o seu passeio matinal habitual, nas arcadas da Câmara, fumando o seu charu- to, quando um de seus amigos – o Cassapo - se aproxi- mou e desesperadamente, conta-lhe um história triste:

  • Ó Mestre já soube de ontem à noite?
  • Não, não soube de nada, o que aconteceu? - pergun- tou-lhe o Mestre
  • Então Mestre, ontem à noite fui jogar chichon no Ginásio e perdi a féria toda, dei um azar desgraçado. Comecei a ganhar e a ganhar bem, mas a sorte virou e agora estou aqui numa situação, que não tenho dinheiro nem para pagar o aluguer. – disse o Cassapo em tom de choramingas, e já foi logo emendando:
  • Ó Mestre não poderia me emprestar uns cem escudos? O Mestre sempre ajudava os amigos, mas percebia que já estava havendo um certo Já colecionava um lista enorme de devedores. E com o Cassapo, particular- mente já tinha perdido a paciência, pois já o tinha alerta-

do das “raposas” com quem ele jogava no Ginásio.

Sempre com aquela calma que lhe era peculiar, o Mestre abre a carteira e tira uma “camisa de vénus”, entrega-a ao seu amigo e diz-lhe:

  • Olha ó Cassapo, vai ... outro, que a mim já me f......

 

O MESTRE NA ROSA NEGRA

 

As más línguas, contavam que:

Era uma tarde ensolarada de domingo, o Spor- ting da Covilhã jogava fora, com o Feirense, e o filme  do cinema não lhe agradava. O Mestre, sem ter o que fazer, resolve dar uma volta no seu Taunus 17M ver-  de, todo reluzente, lavado no dia anterior - punha os garotos vizinhos para lho lavarem a troco duns vinte e cinco tostões para comprarem o macito de Kentucky, às escondidas dos pais.

O Mestre passava ali em frente à esquadra e quando desce a rua da praça, avista uma cachopa “muita” boa, rebolando umas belas coxas, e toda aperaltada, muito bem arranjada, e de lábios pintados...afinal era domin- go. Pára o carro, conserta o papilon, arruma o chapéu,  e conversa vai, conversa vem, o Mestre que não era de perder tempo, convida-a para dar uma volta e irem ver as vistas à Rosa Negra. Ela fez aquele charme, coisa e tal, mas lá aceitou.

Chegando lá, o Mestre, que também não era de mui- to se fazer esperar, pá daqui pá de lá, mão na mão, mão naquilo, aquilo na mão, e aquilo naquilo. O Mestre ca- prichando mexia-se “pra” cá, mexia-se “pra” lá, mas percebia que a rapariguinha estava pouco entusiasma- da e bem quietinha. Aquilo começou a fazer-lhe chegar o sangue à cabeça - à do chapéu, porque à outra já tinha chegado há muito tempo -, e ele irritado pergunta-lhe:

  • Mas olha lá filha, então tu não “trabalhas”?
  • Trabalho sim senhor, trabalho lá embaixo na Nova Penteação! - responde-lhe

 

O MESTRE E A MAÇAROCA

 

O povo conta que:

O Mestre era também um pouco mulherengo. E como todos sabiam, um grande gozador.

Numa noite de verão, andava ali a passear pelo Pe- lourinho, já tinha tomado uns finos no snack bar do Montiel, entrou no velho Skoda e resolveu visitar uma amiga de longo tempo, a “D. Esperança” que morava ali depois da Fábrica Alçada, no começo da estrada que vai para a Aldeia do Carvalho.

Chegando lá, ela fez-lhe um café, como era de costu- me, sentaram-se no sofá para trocar umas idéias, e de- pois de uma descontraída conversa, lá fazem o que têm que fazer, e no final enquanto a senhora se arranjava, diz o Mestre indo embora:

  • Olha menina, fica-te aqui “pra” uma ..

 

Assim que ela voltou ao quarto, abriu a gaveta e de- para-se com uma maçaroca de milho...

Numa outra ocasião o Mestre para se divertir um pouco, resolveu fazer também uma “brincadeira” com uma outra sua amiga, a “Graça do Canhoso”, mas dei- xou-lhe lá um botão... já imaginaram o que ele disse ao sair: ”fica-te aqui “pra” um casaco....”

 

O MESTRE NO GINÁSIO

 

Aos sábados à noite, o Mestre gostava de jantar no Solneve, com os seus amigos mais chegados,

o Cassapo, o Carriço, e o Zé Carrola. Comia invariavel- mente um arroz de carqueja, com batatas e cabrito, de- vidamente regado com um tinto da Adega do Fundão. Tomava uma bica com um “cheirinho” e fumava o seu tradicional charuto.

Cumpridos os rituais e depois de muita conversa, dirigiam-se os três ao Ginásio, onde ficavam até altas horas da madrugada jogando acirradas partidas de chichon.

Depois de tão farta refeição, não era incomum o Mes- tre deixar-se dormir durante a jogatina. Estava-se tor- nando uma rotina, e os amigos começavam a sentir-se incomodados com a situação.

Naquela noite de sábado, não foi diferente. Lá pela terceira rodada, passava da meia-noite e o Mestre co- meça a “pesar figos”. A toda a hora os amigos davam- lhe uma cotovelada para ele despertar, do sono que era quase profundo.

Então os amigos resolveram pôr em prática um pla- no que andava a ser alinhavado há umas semanas. O Mestre sempre levava a melhor com eles, mas estava a chegar a hora da doce vingança.

Quando o Mestre caiu no sono, deram o sinal com- binado, ao contínuo do clube, o senhor Mário – aquele sujeito simpático, magrinho e com uns óculos redondos e com lentes fundo de garrafa.

A sala já estava com as grandes e pesadas cortinas fechadas, e aquele ambiente esfumaçado, quando o se- nhor Mário apagou as luzes, ficou um breu total.

E os amigos começaram:

  • Ás...valete...cinco...ó Mestre atão não tá a acompa- nhar?
  • Veja lá Mestre, esta serve-lhe?

O Mestre já de olhos abertos e ouvindo aquela con- versa animada, olha, mas não vê. Abre mais os olhos e não enxerga.

  • Vamos Mestre, vai jogar ou não vai? Despache-se lá, então...

O Mestre, desesperado começa a gritar:

  • Estou cego!!! Fiquei ceguinho!!! Ai meu Deus do céu, eu não vejo

 

  • Como é que me foi acontecer esta desgraça??? – la- mentava-se aos

Os amigos, contrariamente ao que tinham combina- do, e segurar mais a “brincadeira”, não se aguentaram  e começaram a rir a bandeiras despregadas, alguns até rolando no chão de tanto rir.

Quando o senhor Mário acende a luz, o Mestre le- vantou-se, dirigiu-se à porta e quando já ia saindo mui- to arreliado, diz-lhe o Cassapo, com um doce sabor de vingança:

  • Olha ó Mestre, não digas que vais

E claro, como a última palavra tinha que ser dele , há quem tivesse ouvido: “vão-se rindo, vão-se rindo que há mais dias do que chouriças”.

 

O DR.ABÍLIO

 

O Zé Luís Moraes Alçada tinha chegado de férias, de Castelo Branco onde estudava, e estava ali

no paleio com uns amigos à porta do Montalto, quando se junta à conversa, o Mané Trindade, um famoso cromo da região.

O Mané era do Dominguiso, e fazendo jus às origens, era negociante de farrapos e afins, e, muito merecida- mente, tinha-se tornado um bem sucedido empresário do ramo. No início, tempos de sacríficio, percorria as ruas da Covilhã, apregoando: “peles de coelho ou farra- pos que queiram vender”. Mas esses, eram tempos que já iam longe...

Bom de conversa e bom contador de histórias, o Mané desata a contar mais uma, ali à malta:

- Vejam só como são as coisas. Na semana passada, dei uma escapada a Lisboa, que, como vocês sabem que gosto de fazer de vez em quando, e encontro o Mestre Abílio a passear no Rossio, com o seu inseparável cha- ruto no canto da boca.

  • Ficamos ali à conversa, fomos beber umas gingi- nhas e o Mestre convida-me para irmos até ao Casino do Estoril jogar umas partidinhas de chichon, .. – vai contando o Mané todo entusiasmado.
  • E tu gostas pouco disso, não é? – comentava o Zé Luís.
  • Pois é, e vocês sabem como é o É no tudo ou nada. E vocês já imaginam no que acabou:
  • No nada!!! Saíram de lá tesos que nem uns carapaus
  • adivinha o Zé Luís, dando uma sonora
    • Metemo-nos no comboio de volta para Lisboa, lo- gicamente numa carruagem de primeira classe, e eu pergunto ao mestre: “então ó mestre e o bilhete?” “Fica aí quietinho, que se aparecer o revisor, eu conto uma história triste “pró”gajo, fazemo-nos de parolos e pron- to. Sempre dá certo, porque é que havia de dar errado agora?- respondeu o Mestre todo senhor de si, demons- trando ter grande intimidade com a

Entretanto a “rodinha” já contava com uns dez, to- dos atentos à história do Mané Trindade, que de vez em quando diziam:

  • Continue, continue Mané.
  • Chegados ao Cais do Sodré, sãos e salvos, pois o revi- sor não apareceu, pergunto eu ao Mestre:”Então ó mes- tre agora é que são elas...onde é que eu vou dormir? Tô teso, pá!”
  • Vejam só vocês o coração grande que tem o mestre
  • continua o Mané
    • Diz-me o mestre:”olha ó Mané, não te apoquentes. Vais a dormir ali à Pensão Bem Estar, e dizes que vais

 

ficar no meu quarto, que me apareceu um compromisso e que eu cedi o quarto para ti, ok?”

  • Mas e vossemecê? Para onde vai? – perguntei muito curioso.
  • Olha ó Mané, agora vai entrar em cena o doutor Abílio. Tás a ver esta bata branca de barbeiro que trago aqui na malinha? Pois é, vou dormir ao Hospital de Sta. Maria, tenho lá sempre um bom quarto à minha espera, tomo um duche de manhã, depois como um belo peque- no almoço, e ainda me chamam de doutor. – contava o Mestre ao Mané.

A rapaziada ria a bandeiras despregadas, alguns já se sentavam nos degraus da porta do Montalto escanga- lhando-se de tanto rir. E aí arremata o Mané:

  • E o melhor vocês não O mestre quando che- ga para dormir, diz à enfermeira de plantão: “olhe me- nina, só me acorde, se o caso for muito urgente!”

 

O MESTRE E O GELO

 

Contava-se que:

O Mestre andava chateado. O assunto era gra- ve e não lhe agradava a idéia de desabafar com algum amigo, por mais confiança que tivesse com ele.

Chegou-lhe aos ouvidos que a Chona, uma rapariga famosa que por lá circulava e amiga de toda a rapazia- da, andava a falar mal dele: que não era mais o mes- mo, que a barriga já lhe pesava, que deixava a desejar, que já estava a passar o Cabo da Boa Esperança, enfim coisas desagradáveis que nenhum homem gosta que falem a seu respeito. Muito menos o Mestre, machão  de carteirinha. Falava para si mesmo:

  • Caraças pá, se esta gaita se espalha, estou frito, como é que vai ficar a minha fama?...

Aquele assunto, realmente, perturbava-o, deixava-o nervoso e irritado.

Estava no Montalto sentado numa mesa num canti- nho do fundo junto àquelas portas altas envidraçadas e depois de ter tomado uma bica com um “cheirinho”, cha- mou o Jeremias e pediu uma ginginha, que o ajudava a raciocinar melhor. Começou ali a engendrar uma forma de dar o troco à rapariga. Dava aquelas fortes baforadas no seu charuto, que iam-no deixando mais calmo.

Pensava ele: ”Espera aí, que já te digo, anda que vais ver o que é bom “prá” tosse”.

Acabou de tomar a ginginha, pagou a conta, ajeitou o chapéu na cabeça e foi-se embora.

Passou no Café Montanha, do Caninhas, ali na Rua Direita, e foi até ao balcão.

  • Ó Zé Bomba, põe-me aí num saquinho plástico, meia dúzia de pedras de
  • Mas para que é que o Mestre quer o gelo? - per- gunta o Zé
  • Olha ó Zé faz a tua obrigação e vê se te mexes, não me irrites pá! – responde-lhe o Mestre, já sem paciência. O Mestre enfia o plástico no bolso do casaco e vai para a casa da Chona que morava ali numa quelha em

frente à Igreja de S.Francisco.

Por acaso, estava em casa. Lá entrou, trocaram umas idéias, e o Mestre, como sempre, deixou-se dos “en- tretantos” e foi logo aos “finalmentes”, até porque não podia demorar, senão o gelo ia-se derreter todo.

Enquanto ela foi ajeitar-se lá dentro, o Mestre pensou para si: “anda que já vais ver o que é bom “prá” tosse”. Foi à gaveta da cómoda, e com a alma lavada, deu-

lhe um berro lá pra dentro:

  • Olha filha... fica-te aqui pra um refresco!!!

Dizem que a rapariguinha nunca mais olhou para a cara dele.

 

O MESTRE E O PAU DE CABINDA

 

Corria a história que:

Já passava da meia-noite, e o Mestre andava ali pela Rua Ruy Faleiro a ver as montras da Casa do Leão, Casa Pintassilgo, Perfumaria Bonina, o que na verdade não era do seu feitio.

Demonstrava uma certa impaciência, que não lhe era peculiar, pois era normalmente uma pessoa calma. Era uma quinta-feira, estava ali à espera da saída do cinema, para ver se encontrava alguém com quem conversar. Já não dormia há uns dois dias e também não tinha sono nenhum.

Conta-se que dois dias antes, ali à porta da tabaca- ria, o Mestre conversava com o Necas Torres e com dois rapazes que moravam ali para os lados de Santa Maria, e que tinham regressado recentemente de Angola onde cumpriram o serviço militar. A conversa para variar, era sobre mulheres: “aquela é boa como o milho...a outra tem umas coxas de dar inveja”...e por aí vai.

Dizia o Mestre: “vocês sabem que eu não sou de  me gabar, mas quando a matéria é mulheres, não dou uma néga”.

Conversa vai, conversa vem, os rapazes contaram ao Mestre que tinham trazido do ultramar um pouco de pau de cabinda, uma espécie de Viagra daquela época. “Ó mes- tre fique aí com um pouco” – disseram eles. “É pá não pre- ciso disso caraças, não vos disse já?” – respondeu o Mestre. Tanto que insistiram que o Mestre aceitou e disse-lhes:

  • Não pensem que vou tomar hein, se tomar vai dar “overdose”.

Só que a curiosidade era maior e, mal os rapazes su- biram as escadas da Câmara, o Mestre entra no Montal- to e já manda “aquilo” pró bucho.

Bom... já se está a ver o que aconteceu: deu a tal da “overdose” ou o que lhe quiserem chamar. Por isso é que o Mestre andava tão impaciente de montra em montra, sem parar em lugar nenhum.

A situação não era das melhores, já tinha brigado com uma, por causa da maçaroca de milho, com outra por causa do botão, e com a outra por causa do gelo, a coisa não estava nada boa para o seu lado.

Como a saída do cinema estava demorando, voltou para as arcadas, ali perto onde ficava o Turismo. Sorte dele. Aliás, sorte com a mulherada era coisa que não lhe faltava.

 

Daí a pouco, lá vem uma bela rapariga em direcção ao Mestre e pergunta-lhe:

  • Olhe desculpe lá, é aqui que se toma o autocarro para a Aldeia do Carvalho?

Bom, o Mestre engatou uma primeira e sabem como é, pé no acelerador. Já quase subindo pelas paredes, em cinco minutos subiram as escadas da Câmara, aquelas do lado dos Correios, e ali naquele cantinho, onde a malta se aliviava por falta de casa de banho por perto, o homem não perdoou.

Ainda estavam se compondo de tão rápida aventura, vem um homem na direcção deles. A cachopa desce as escadas a correr e o Mestre fica por ali a disfarçar.

Mas para alívio dele, era o amigo Cassapo que lhe pergunta:

  • “atão” ó mestre, caraças aqui é lugar para fazer isso? Responde-lhe o Mestre:
  • Olha amigo, o meu pai sempre me ensinou: “deu na cozinha, não leva “prá” sala!”

Dizem que o Mestre, acabou a noite em cima de um telhado a chamar os passarinhos: “PIU-PIU-PIU”...anda cá meu pequenino!!!...

 

A MENINA GRACINDA

 

Conta-se que:

Era fim de tarde fria de dezembro, e lá estava o Mestre com o seu amigo Cassapo, à porta do Montiel conversando, ou melhor cortando na casaca de quem por ali passava. Quem é que por lá aparece, a Gracinda, uma viúva, que morava a Santa Maria e conhecida do Mestre. Era uma rapariga já um pouco desgastada pelo tempo, dentes meio estragados - nunca teve muitas pos- ses para ir ao Dr.Patrício com mais regularidade – mas tinha traços bonitos e ainda era vistosa. Como se dizia, ainda “dava meia sola”.

Ficaram ali ao paleio uns quinze minutos. O Cassa- po, ficou até meio de lado, a disfarçar, pois a lenga-len- ga, não o incluía.

  • Sabe Mestre, o meu Manel já se foi há quase dez anos, ando prá’qui tão desconsolada, que só – dizia ela para o Mestre.
  • Mas ande lá ó menina Gracinda que ainda há-de ar- ranjar um bom companheiro – desconversava o
  • Mas, sabe Mestre, dez anos é muito tempo. Bem que o Mestre podia me levar a dar um passeiozito no seu Skoda. As meninas lá do serviço, dizem que o Mes- tre guia como ninguém. – dizia ela

A conversa foi tomando um rumo, que o Mestre co- meçou até a ficar com pena da coitada, e tomou a decisão.

  • Ó Cassapo, aguenta aí, que daqui a meia hora, es- tou de

E lá vai o Mestre a dar um passeio com a Gracinda para a Serra. Ligaram o rádio do carro e lá foram por ali acima todos contentes, a ver as vistas.

Na descida da serra, o humor da Gracinda já era ou- tro. Toda contente, muito sorridente, conversadeira, fa- zia planos para o futuro, parecia que tinha tomado um injecção de ânimo. Enfim, parecia outra, a coitada.

No regresso do Mestre ao Montiel, diz o Cassapo, es- boçando um sorriso maroto:

  • “Atão”, ó Mestre, pensei que vossemecê, só gostava de filézinhos...
  • Pois é amigo Cassapo, que a história fique aqui en- tre nós, mas, um copo de´agua e uma ....., não se negam a ninguém.
publicado por Memórias às 15:52
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